Autor: Leon Cardoso da Silva
(Fragmento de um romance em construção)
–
Quem é “Deus” para você?
–
A questão está incorreta.
–
Como assim? – João ficou surpreso.
–
A questão está incorreta porque há uma incompatibilidade entre quem ou o
quê seja Deus e o atual alcance do
conhecimento dos seres humanos. Então, o correto é perguntar: o quê significa Deus? Além disso, outra
coisa que as pessoas confundem: não parece correto alguém questionar-se sobre
qual seria o sentido da vida. Por necessidade, devemos fazer um caminho
distinto, mas que nos leve a esta questão. Assim a questão se inverteria e
passaria a ser a seguinte: nossa existência é boa a ponto de justificarmos o
fato de estarmos existindo? Se entendermos que nossa existência é boa o
suficiente a ponto de não darmos fim a ela, mas sempre buscarmos fontes para
continuarmos mantendo nossa vida, então a resposta já está dada: o fato de
estarmos existindo, por si próprio, já é o suficiente para justificarmos o
sentido de nossas vidas.
João ficou bastante confuso. Nunca
tinha pensado deste ponto de vista. Parecia correto compreendermos a
possibilidade ou impossibilidade de um Deus a partir de seus significados para
as pessoas. As religiões são dessa forma - todas que ele conhecia. Se fosse o
caso poderíamos afirma que temos a possibilidade de encontrar Deus dentro de
nossa própria individualidade, para isso bastaria sondarmos seus significados.
Não precisaríamos ir para uma igreja, nem ler a bíblia, nem escutar algum
religioso ou pregação religiosa para compreendermos que Deus tenha seus
próprios significados e de alguma forma o conheceríamos sem influências
externas.
Tudo indicava que João tinha
cometido certos exageros nestas observações. Ele percebendo isso refez a
pergunta:
– “Deus” tem algum significado para
os métodos de estudo da astronomia?
– Todos nós temos uma ideia do que
seja Deus. Isso é tão intenso que divide as religiões de tal forma que cada uma
acaba atribuindo um significado diferente para o conceito de Deus. Assim, cada
religião diferente pinta um Deus diferente. Por isso, todo ser humano tem o
direito de entender o conceito de uma divindade conforme sua própria visão de
mundo. Os significados do que seja Deus são individualizados porque, embora
possa haver alguns padrões de comportamentos, cada indivíduo tem sua própria
visão de mundo.
O
método de estudo adotado pelos astrônomos é o método científico. Vou te
explicar: quando Albert Einstein publicou a teoria geral da relatividade a
comunidade científica achou surpreendente uma nova teoria que revia muitos
aspectos da teoria mais aceita que era a da gravidade de Isaac Newton. Mas,
para que fosse aceita era preciso que se observasse um eclipse para que fosse
aplicada, fato este que poderia ser comprovada ou negada. Assim o fizeram e
constataram que a gravidade exercia uma deformidade no tecido espaço tempo a
ponto de ao ofuscarmos a luz do sol poderíamos ver que a luz de estrelas ou
galáxias atrás dele faz uma curva ao passar pelo seu campo gravitacional. Foi
preciso uma primeira tese ou hipótese, para depois a comprovarmos.
Resumidamente este é o método científico.
Qual
o significado de Deus para este método? Eu poderia dizer que enquanto a ciência
vai em busca de comprovações ou negações de suas afirmações, as religiões
influenciam as pessoas a aceitarem afirmações sem comprovações. O movimento é
inverso. A única relação entre Deus e o método utilizado por alguns astrônomos
ocorre no campo da imaginação. Muitas vezes o desenvolvimento da ciência
permite esta exploração de nossa faculdade de imaginar, de fantasiar. Deus é cada
vez mais forte, quanto mais forte for a capacidade de imaginação de uma pessoa.
Se não fosse esta capacidade de imaginação certamente nem Newton, nem Einstein
chegariam tão longe.
– “Deus” é um conceito humano?
– Sim. Não quero dizer que os outros
animais da natureza também não sejam dotados desta faculdade (de imaginar).
Acontece que o ser humano é uma espécie que não só produz conhecimentos, mas que
também o organiza. O que muitas vezes não pode explicar, por causa de suas
incertezas e de sua imaginação ele busca respostas que estão além de seus
conhecimentos.
– Então “Deus” não pode ser
conhecido?
– Se Deus existe ou existisse ele
certamente não seria compreensível para a mente humana. Assim como o universo
também não é completamente conhecido. É
incompreensível a ideia de que um ser infinito poderia ser alcançado por um
extremamente finito e perecível.
– Então isso não condena as
religiões e as ciências ao fracasso?
– De forma alguma. As religiões já
provaram seus fracassos. Basta olharmos para a história da civilização. Do
contrário, se não fosse o desenvolvimento da ciência, nossa civilização estaria
condenada a um primitivismo permanente e trágico. Ao fazermos o percurso da
medicina para o ponto mais distante do espaço entendemos que muito ainda há
para se conhecer e isso acaba nos motivando como seres humanos que busca
entender o universo.
– Poderíamos resumir o conceito de
“Deus” e do universo?
– Poderíamos. Eu diria que: Deus é
um conceito capaz de produzir diversos significados para as pessoas, sobretudo,
que acreditam. O universo é uma imensidade de tempo e espaço marcada
principalmente pela confluência entre matéria e energias.
– Como surgiu o universo?
– Eu poderia utilizar a imaginação e
te dar uma explicação extremamente criativa e, se você fosse muito ingênuo, eu
poderia te fazer acreditar em minha explicação. Acontece que sempre falo de
acordo com aquilo que posso constatar pela minha observação e entendimento.
Assim, eu diria que o universo surgiu de um provável choque muito intenso de
energias distintas, muitas se repelindo. Tudo que você observar tem energia. Se
você, por exemplo, fizer uma caixa e fechá-la sem nada dentro e disser: não
existe nada dentro desta caixa seria uma definição falha, pois se utilizarmos
alguns aparelhos tecnológicos já existentes poderemos observa que onde
acreditava-se que não existia alguma coisa, na verdade há energia, portanto não
existe o nada. Por isso Deus não criou o universo do nada, como afirma o
criacionismo. E se tivesse criado alguma coisa precisaria ter a sua disposição
uma imensidade de energias para tornar esta coisa possível. Se isso fosse o
caso, ele não teria criado algo do nada, mas de energias já existentes.
– Quando surgiu o universo?
– Cronologicamente você pode perceber
o seguinte: através de dados matemáticos e de experimentos envolvendo diversos
campos de estudos o universo surgiu a cerca de 13,5 bilhões de anos. Nosso
planeta e nosso sistema solar surgiram a 4,5 bilhões de anos. As formas de vida
mais antiga eram microorganismos e surgiram a aproximadamente 3,4 bilhões de
anos. A maior parte da diversidade de vida surgiu a cerca de 540 milhões de
anos. E a espécie humana surgiu a apenas 200 mil anos. Isso faz da espécie
humana uma espécie relativamente nova sobre a terra.
– Isso quer dizer que haveria a
possibilidade e existir vida em outro planeta?
– Assim como não podemos afirmar que
exista vida em outro planeta, igualmente não podemos negar tal afirmação. Para
você ter uma ideia, durante muitos anos acreditou-se que a terra era o centro
do universo, depois que só existiam algumas estrelas, alguns planetas, depois
descobrimos, sem a imposição dos fundamentos religiosos, que isso tudo estava
errado, pois na verdade estamos localizados em uma galáxia e que existem outras
galáxias. Esta última descoberta só em 1923 – muito recente. Depois disso
descobrimos que não só existem outras galáxias, mas números incalculáveis
delas, com números incalculáveis de estrelas em cada uma delas, que ao redor
destas estrelas há, também, incalculáveis números de planetas. Não só
descobrimos isso, mas também que o universo está em expansão e as galáxias
estão ficando cada vez mais distantes umas das outras.
Para
você ter uma noção da grandeza, nosso sistema solar está localizado na
extremidade de um dos braços espirais de nossa galáxia, a via-láctea. A distância
entre nós e o centro (núcleo) dela é de aproximadamente 30 mil anos luz. São
necessários 200 a 250 milhões de anos para o sol completar uma órbita ao redor
do núcleo da via-láctea. A distância entre nossa galáxia e a mais próxima – a
M-31 – é de aproximadamente 2 milhões de
anos luz. Um ano luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros. A nossa galáxia
tem um diâmetro de 100 mil anos luz e aproximadamente 200 bilhões de estrelas.
Além disso, ao redor de nossa galáxia, acima e abaixo do disco, numa aureola,
existem aproximadamente 200 aglomerados que podem conter até 1 milhão de
estrelas cada.
–
Isso tudo é impressionante. Mas como posso acreditar nestas observações?
–
Não são afirmações sem provas. Isso quer dizer que você próprio pode constatar
com seus próprio olhos. Para isso basta você olhar o céu em uma noite limpa e
escura, sem a luz da lua e sem muita interferência da luz da cidade. Você
poderá ver de 2 mil a 3 três mil estrelas. Em momentos e tempos específicos
você poderá até mesmo ver a grande maioria dos planetas do nosso sistema solar.
Se isso não for o bastante, você pode ir em algum centro astronômico ou
adquirir um binóculo ou uma telescópio com lentes adequadas e ver com mais
detalhes até mesmo galáxias, luas, cometas, meteoros, etc. Ainda assim, se isso
não for o bastante você pode se especializar e fazer seus próprios cálculos
matemáticos ou estudar algum aspecto do universo como super-novas, buracos
negros, etc. Quando Galileu aperfeiçoou o telescópio e constatou a existência
de algumas luas em júpiter, chamou outras pessoas para confirmarem suas
descobertas. O que aconteceu? Muitas pessoas não acreditaram no que elas
próprias estavam vendo.
– Parece que você está certo.
Anteriormente você estava falando sobre a distância em anos luz... qual é a
velocidade da luz?
–
A velocidade da luz é 300 mil quilômetros por segundo. Isso quer dizer que se
fossemos percorrer a distância da extremidade de nossa galáxia à extremidade da
galáxia mais próxima de nós voando em uma nave espacial a uma velocidade de 300
mil quilômetros por segundo demoraríamos 2 milhões de anos para chegarmos lá. A
esta mesma velocidade rumo ao centro de nossa galáxia levaríamos aproximadamente
30 mil anos para chegarmos. Atualmente é impossível alcançarmos essa
velocidade. Percebeu a grandeza do universo? Como o número de galáxias é
incalculável, pela quantidade delas que existem, isso faz com que a
probabilidade de que haja vida em outro planeta seja muito grande.
– Como ainda não foi descoberto vida
em outro planeta, podemos dizer que estamos em um lugar privilegiado e incomum
no universo?
– Se um lugar comum for zonas
habitáveis – o que não é incomum – então digo que estamos num lugar comum. Mas,
se eu entender lugar incomum como lugares extremamente difíceis como buracos
negros e quasares então para mim estes lugares difíceis é que devem ser
encarados como incomum no universo.
João agradeceu pelas informações e
saiu ainda mais confuso. À medida que caminhou na calçada esta confusão foi
dissipando-se, pois agora sua reflexão estava mais clara e mais profunda.
Primeiro pensou na possibilidade de que “Deus” fosse o universo e não uma
divindade específica e reducionista. Num segundo momento, pensou na
possibilidade de “Deus” ser uma energia inexplicável que equilibra tudo que
existe no universo. Ainda com uma terceira vertente, pensou na possibilidade de
existirem muitos outros universos e um artífice único por trás de todos eles.
Um pensamento acessório ofuscou sua mente ao levá-lo para um caminho nada
confortável. É que num lampejo de dúvida pensou na hipótese de que o universo
tenha sido obra do acaso, surgido daquele ponto quântico e que o ser humano,
sendo apenas uma espécie entre inúmeras outras espécies de seres vivos, estava
só no universo, jogados à sua própria sorte.
Com este último pensamento, João entendeu
que a ausência de uma ideia de divindade não diminui em nada a responsabilidade
dos seres humanos. Nem que esta ausência seja marcada pelo vazio sem sentido e
sem perspectivas. O universo continua o mesmo tanto para os que têm fé em uma
divindade, quanto para os que não têm.
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